PARE DE JUSTIFICAR O ABUSO: Por que a mente defende quem nos faz sofrer?

Às vezes, para conseguir continuar do lado de quem você ama, a sua mente inventa razões para explicar aquilo que o seu coração já sabe: está machucando.

Existe uma situação que pode parecer contraditória: você percebe que está sofrendo, reconhece que determinadas atitudes da outra pessoa te fazem mal e, ainda assim, encontra explicações para continuar aceitando tudo aquilo.

Você pode até compreender que houve uma humilhação, um controle, uma ameaça, uma manipulação ou uma desvalorização. Mas, logo depois, surge aquela justificativa que suaviza o que aconteceu:

“Talvez ele estivesse nervoso naquela hora…”

“Talvez ela tenha passado por situações difíceis…”

“Talvez tenha sido apenas um momento de descontrole…”

“Talvez, com o tempo, tudo mude…”

E assim, pouco a pouco, justificar o abuso pode se transformar em uma maneira de continuar convivendo com uma realidade que provoca sofrimento.

Isso não significa que você não perceba absolutamente nada. Muitas vezes, você percebe. O problema é que notar que algo está errado é bem diferente de conseguir aceitar plenamente o significado daquilo que está acontecendo.

Quanto mais importante é o vínculo, mais difícil pode ser reconhecer que justamente essa relação, na qual você depositou sentimentos, planos e expectativas, também se tornou uma fonte de sofrimento.

Por isso, antes de tentar compreender por que você ou qualquer pessoa permanece em uma relação abusiva, precisamos olhar para uma questão ainda mais básica: o que exatamente estamos chamando de abuso?

Porque, quando determinados comportamentos são confundidos com problemas comuns de relacionamento, torna-se muito mais fácil encontrarmos motivos para justificá-los.

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O que é abuso e por que ele nem sempre é fácil de reconhecer?

Antes de entender por que alguém pode justificar o abuso, é preciso compreender o que está sendo justificado.

Abuso não é simplesmente uma discussão, uma diferença de opinião ou um conflito entre duas pessoas. Relações podem ter divergências, momentos de irritação e até discussões difíceis. O conflito, por si só, não transforma uma relação em abusiva.

A diferença está na forma como vocês se tratam e, principalmente, no padrão que se estabelece ao longo do tempo.

Em uma relação saudável, mesmo quando existe discordância, você tem espaço para conversar, expressar limites, reconhecer erros e buscar soluções. Você não precisa viver com medo da reação da outra pessoa para conseguir falar, discordar ou simplesmente ser quem é.

No abuso, a relação começa a produzir um desequilíbrio no qual você passa a sofrer, de maneira repetida, com comportamentos que envolvem controle, humilhação, intimidação, desvalorização, ameaças, manipulação ou outras formas de violência psicológica.

E é justamente aí que surge uma das maiores dificuldades: nem todo abuso é evidente.

Por ser algo sutil, fica muito mais fácil você cair no ciclo de justificar o abuso.

A violência física costuma deixar sinais mais fáceis de identificar. Já a violência psicológica acontece por meio de comportamentos que, isolados, parecem pequenos. Muitas vezes, quem os pratica tenta fazer com que pareçam apenas preocupação, brincadeira, ciúme, irritação ou uma simples reação a alguma atitude sua.

Por virem disfarçados assim, fica muito mais fácil você minimizar o que sente e justificar o abuso. Com o tempo, porém, esses comportamentos afetam profundamente a sua autoestima, a sua autonomia e a sua segurança emocional.

A violência psicológica também não precisa acontecer o tempo inteiro para produzir sofrimento. O que importa é observar o conjunto dos comportamentos e os efeitos que eles produzem na relação.

Por isso, reconhecer o problema não significa afirmar que você nunca viveu momentos felizes ou que toda a história de vocês foi ruim. Uma relação pode ter carinho, companheirismo e lembranças ótimas e, ainda assim, apresentar comportamentos abusivos.

Essa compreensão é fundamental, porque você pode acabar usando justamente os momentos bons para justificar o abuso nos momentos ruins.

“Se essa pessoa me ama, como poderia estar me fazendo mal?”

Mas uma coisa não elimina a outra. A existência de sentimentos ou de memórias positivas não transforma atitudes abusivas em comportamentos aceitáveis.

Quando o problema é minimizado dessa maneira, fica mais fácil você passar da tentativa de compreender o que aconteceu para a necessidade de justificar o abuso.

E é exatamente essa diferença que você precisa compreender a seguir.

O Que Significa Justificar o Abuso?

Justificar o abuso é encontrar uma explicação que diminui a gravidade do que aconteceu. É uma forma de suavizar o seu sofrimento ou deslocar a responsabilidade de quem te agrediu para você ou para outras circunstâncias.

Você percebe o que aconteceu. Você consegue reconhecer a humilhação, o controle, a ameaça ou a desvalorização. O que realmente muda é a interpretação que você dá ao acontecimento.

Em vez de focar apenas no comportamento e nas consequências dele na sua vida, você começa a procurar uma razão que torne tudo aquilo mais aceitável. É aí que você cai no padrão de justificar o abuso.

“Talvez a outra pessoa esteja passando por um período difícil.”

“Talvez tenha sofrido muito no passado.”

“Talvez estivesse sob muita pressão.”

“Talvez tenha sido apenas um momento de perda de controle.”

“Talvez exista algo que eu ainda possa consertar.”

O problema não está em tentar compreender o comportamento humano. Compreender é importante. O problema começa quando a explicação passa a funcionar como uma desculpa e impede que o comportamento seja avaliado pelo que ele realmente produz.

Existe uma diferença fundamental entre explicar e justificar.

É totalmente possível você compreender que determinadas experiências de vida contribuíram para o desenvolvimento de comportamentos disfuncionais, sem que você precise considerar essas atitudes aceitáveis.

Uma história de sofrimento passado pode até ajudar a explicar as ações de alguém.

Mas entenda: o passado de alguém não autoriza essa pessoa a causar dor em você no momento presente.

Você começa a pensar sobre a infância da outra pessoa, suas dificuldades, seus traumas, suas inseguranças e problemas. Enquanto isso, aquilo que está acontecendo com você vai ficando em segundo plano.

E quanto mais o tempo passa, mais natural parece encontrar uma nova explicação para cada comportamento.

É nesse momento que justificar o abuso deixa de ser apenas uma tentativa de compreender uma situação específica e passa a interferir na maneira como a própria relação é percebida.

Mas existe ainda outra questão importante.

Se justificar o abuso não acontece simplesmente porque alguém é ingênuo, fraco ou incapaz de perceber o que está acontecendo, então quem está sujeito a cair nessa situação?

A resposta para essa pergunta é importante porque existe um preconceito bastante comum sobre quem sofre abuso narcisista: a ideia de que essas pessoas seriam necessariamente frágeis, carentes ou emocionalmente dependentes.

Inclusive, recomendo um vídeo no meu canal que ajuda justamente a desconstruir essa ideia:

Estereótipos sobre o Abuso Narcisista?

Antes de continuarmos, vale fazer uma pausa para questionar uma ideia bastante difundida: a de que somente pessoas frágeis, inseguras ou emocionalmente dependentes podem ser envolvidas em uma relação de abuso narcisista.

Esse estereótipo, além de simplificar um fenômeno complexo, pode fazer com que a própria pessoa que sofreu o abuso se sinta culpada por ter entrado ou permanecido naquela relação.

Se desejar se aprofundar nessa questão, você pode assistir ao video completo sobre este tema no meu canal:

O Mito da Fragilidade no Abuso Narcisista

O problema desse estereótipo é que ele faz parecer que algumas pessoas estariam naturalmente protegidas contra o abuso. Mas não é assim que funciona. O envolvimento emocional pode modificar a maneira como uma pessoa interpreta aquilo que está vivendo, independentemente de sua inteligência, profissão, independência ou força de personalidade.

E, se não podemos explicar o abuso pela suposta fraqueza de quem o vivencia, precisamos voltar à nossa pergunta central: por que justificar o abuso parece tão natural?

Por que justificar o abuso parece tão natural?

Depois de compreender que o abuso não acontece simplesmente porque alguém é fraco ou incapaz de perceber o que está acontecendo, chegamos à questão central deste artigo: por que a mente encontra tantas razões para justificar o abuso?

A resposta não está em uma única causa.

Quando existe um vínculo emocional importante, reconhecer que aquela relação está causando sofrimento pode representar uma ameaça a muitas coisas ao mesmo tempo:

Aos seus sentimentos.

Aos seus planos de família.

À imagem que você construiu da outra pessoa.

E até à ideia que você tem sobre a sua própria vida.

É por isso que a mente tenta encontrar uma interpretação que torne aquela realidade menos dolorosa.

Em vez de concluir imediatamente que existe um problema grave, a sua mente procura outras possibilidades. É aí que surgem novos questionamentos:

“Talvez seja apenas uma fase.”

“Talvez exista uma explicação para isso.”

“Talvez ainda seja possível resolver.”

“Talvez a situação não seja tão séria quanto parece.”

Essas interpretações podem trazer um alívio momentâneo. O verdadeiro problema começa quando esse alívio impede você de olhar para o que está acontecendo de maneira mais objetiva.

A partir daí, justificar o abuso pode se tornar um processo repetitivo: acontece algo que provoca sofrimento, surge uma explicação para amenizar aquilo, a tensão diminui e a relação continua. Quando um novo episódio acontece, uma nova explicação é encontrada.

Assim, o comportamento do agressor passa a ser analisado continuamente, enquanto a própria experiência de quem sofre vai ficando em segundo plano.

E existem alguns fatores que podem tornar esse processo ainda mais difícil de interromper.

Um deles é tudo aquilo que já foi investido na relação.

O investimento emocional faz você justificar o abuso

Quanto mais importante uma relação se torna, maior pode ser o impacto de admitir que ela está causando sofrimento.

Uma relação não é construída apenas pelo tempo que duas pessoas passam juntas. Existe uma história. Existem planos que foram feitos, experiências compartilhadas, mudanças realizadas, expectativas sobre o futuro e, muitas vezes, uma identidade construída em torno desse vínculo.

Por isso, reconhecer o abuso pode significar muito mais do que admitir que determinada pessoa agiu de maneira inadequada.

Pode significar olhar para uma parte importante da própria vida e perceber que aquilo que se desejava preservar também se tornou uma fonte de sofrimento.

É nesse ponto que o investimento emocional pode favorecer justificar o abuso.

Quanto mais você investiu nessa relação, maior pode ser a necessidade de acreditar que ainda existe uma razão para continuar tentando.

Você pode começar a dar mais peso aos momentos bons do que aos comportamentos que te machucam. Fica fácil lembrar de como tudo começou, de quem aquela pessoa parecia ser no início ou de tudo o que vocês já construíram juntos.

Isso não acontece porque você não enxerga os problemas.

Muitas vezes, você enxerga.

Mas reconhecer completamente o real significado desses problemas pode exigir o enfrentamento de perdas que você ainda não tem preparação para aceitar.

Existe também uma tendência humana de querer que nossos investimentos tenham valido a pena. Quando dedicamos anos, sentimentos, energia e expectativas a alguma coisa, é doloroso admitir que talvez precisemos mudar de direção.

Por isso, em vez de você pensar:

“Essa relação está me fazendo mal.”

a sua mente pode procurar uma interpretação menos definitiva:

“Talvez ainda dê para consertar.”

E essa esperança te leva a outro fator que alimenta esse ciclo: a expectativa de mudança. Afinal, quando você acredita que o comportamento da outra pessoa pode mudar, ainda existe uma razão para permanecer.

A esperança de mudança faz você justificar o abuso

Se você ainda se apega à possibilidade de que a outra pessoa mude, admitir que a relação é abusiva parece menos necessário.

A esperança cria uma espécie de futuro possível;

“Talvez aquele comportamento seja apenas uma fase.”

“Talvez as coisas melhorem depois que essa situação passar.”

“Talvez a outra pessoa finalmente perceba o quanto está me machucando.”

“Talvez essa pessoa perceba o quanto sou importante na vida dela.”

E essa expectativa pode fazer com que cada novo episódio seja interpretado como algo passageiro.

Os momentos bons ganham um significado especial. Eles parecem confirmar que existe uma pessoa diferente por trás daquele comportamento e que, em algum momento, essa versão poderá voltar a ocupar o lugar principal na relação.

É assim que justificar o abuso pode se misturar à esperança.

Você não está necessariamente pensando que o sofrimento é bom ou que merece passar por isso. Pelo contrário: você pode estar acreditando que precisa apenas esperar mais um pouco para que a relação volte a ser como você gostaria.

O problema é que a esperança, sozinha, não produz mudança. Ela serve apenas como um anestésico que faz você continuar a justificar o abuso enquanto a realidade continua te machucando.

Para que um comportamento abusivo realmente se transforme, é necessário que quem o pratica reconheça o próprio comportamento, assuma responsabilidade e esteja disposto a modificá-lo de maneira consistente. Não basta uma promessa depois de um episódio, nem alguns períodos de tranquilidade.

Quando isso não acontece, a expectativa de mudança pode se transformar em uma espera indefinida.

E, enquanto você espera por essa transformação, a sua mente continua encontrando desculpas para aquilo que acontece no presente

Em outro artigo, vamos aprofundar o conceito do reforço intermitente. Esse mecanismo psicológico ajuda a compreender por que a alternância entre experiências positivas e negativas pode tornar essa esperança particularmente difícil de abandonar.

Mas ainda existe outro elemento que pode tornar justificar o abuso ainda mais convincente: a culpa.

Quando a pessoa começa a acreditar que talvez tenha alguma responsabilidade pelo comportamento do outro, surge a sensação de que existe algo que ela própria poderia fazer para mudar a situação.

A culpa faz você justificar o abuso

Quando uma relação começa a produzir sofrimento, é muito comum surgir uma pergunta silenciosa na sua mente:

“Será que eu também tenho alguma responsabilidade por isso?”

Reconhecer os próprios erros é saudável em qualquer relacionamento. As pessoas podem se comunicar mal, reagir de maneira inadequada, cometer injustiças e precisar rever certas atitudes. Assumir a sua própria parte faz parte de uma relação madura.

O grande problema aparece quando essa responsabilidade ultrapassa os limites saudáveis e você passa a carregar o peso daquilo que pertence à outra pessoa.

É muito fácil começar pensando que uma discussão aconteceu por causa de uma atitude específica sua e, pouco a pouco, chegar à conclusão de que o comportamento abusivo da outra pessoa é provocado por algum defeito na sua forma de ser.

Você passa a acreditar que se tivesse mais paciência, demonstrasse mais afeto, fizesse menos questionamentos ou fosse simplesmente diferente, talvez a outra pessoa não reagisse daquela maneira.

Assim, a culpa oferece uma explicação que parece dar algum controle sobre a situação. Surge, então, aquele pensamento:

“Se o problema está em mim, então talvez eu consiga resolvê-lo.”

“Basta eu mudar.”

É justamente aí que a culpa atua como o combustível perfeito para fazer você continuar a justificar o abuso.

Você começa a modificar o próprio comportamento para evitar novas situações desagradáveis. Fala menos, questiona menos, cede mais, tenta antecipar as reações do outro e passa a se adaptar cada vez mais.

Mas existe uma diferença fundamental entre melhorar a própria maneira de se relacionar e assumir responsabilidade pelo abuso cometido por outra pessoa.

Você pode ser responsável pela forma como fala.

Pode ser responsável por seus erros.

Pode precisar pedir desculpas.

Mas não é responsável pela decisão de outra pessoa de humilhar, controlar, intimidar ou manipular você.

Sem essa distinção, a culpa perde o sentido de amadurecimento e serve apenas para proteger as atitudes de quem comete a agressão.

E quanto mais você concentra a sua atenção naquilo que poderia ter feito diferente, menos espaço sobra para observar uma questão muito mais importante:

O que está acontecendo comigo dentro dessa relação?

É justamente essa mudança de foco que precisamos fazer agora.

Porque justificar o abuso não afeta apenas a maneira como você interpreta o comportamento da outra pessoa. Com o tempo, esse hábito também te leva a ignorar o seu próprio sofrimento.

Quando justificar o abuso faz você ignorar o próprio sofrimento

Até aqui, vimos como o investimento emocional, a esperança de mudança e a culpa podem levar você a encontrar explicações para aquilo que está vivendo.

Mas existe uma consequência ainda mais preocupante: aos poucos, a sua atenção deixa de estar voltada para o seu próprio sofrimento e passa a se concentrar quase exclusivamente no comportamento da outra pessoa.

A pergunta deixa de ser “como isso está me afetando?” e passa a ser “o que está acontecendo com a outra pessoa?”.

Se a outra pessoa está nervosa, você tenta entender por quê.

Se está distante, você procura uma explicação.

Se fica agressiva, você pensa no que pode ter provocado aquela reação.

Se pede desculpas, a sua esperança retorna.

Ou seja, a sua vida emocional começa a girar em torno da outra pessoa.

Enquanto isso, sentimentos que deveriam ser levados a sério começam a ser minimizados por você.

A sua mente passa a reescrever o que você sente para se encaixar na rotina:

·  O medo vira apenas uma sensibilidade excessiva sua.

·  A tristeza passa a ser encarada como uma fase passageira.

·  O cansaço parece apenas a consequência natural da correria do dia a dia

É assim que justificar o abuso faz com que o seu próprio sofrimento deixe de ser utilizado como um sinal de alerta sobre a qualidade da relação. Em vez de ouvir a sua dor para entender que algo está errado, você passa a ignorá-la para manter o relacionamento de pé.

Isso não significa que toda emoção negativa em um relacionamento seja sinal de abuso. Relações reais têm conflitos, frustrações e momentos difíceis. O ponto é observar quando o sofrimento deixa de ser uma reação pontual e passa a fazer parte da experiência constante de estar naquela relação.

Quando existe controle, humilhação, intimidação, manipulação ou desvalorização repetida, os efeitos podem ultrapassar o momento em que o comportamento acontece. Você pode começar a viver em estado permanente de tensão, insegurança e preocupação.

A violência psicológica é especialmente difícil de identificar porque, na maioria das vezes, não deixa marcas visíveis na pele. Ainda assim, os impactos dela podem ser profundos.

Pesquisas científicas sobre violência psicológica mostram uma ligação direta desse comportamento com o adoecimento emocional e consequências graves para a saúde mental. Por isso, a ausência de agressão física nunca deve ser usada como desculpa para diminuir a gravidade de outras formas de crueldade.

Também podem existir, nesse contexto, estratégias cruéis de manipulação como o gaslighting, que você pode entender com profundidade em outro artigo aqui do blog. Aqui, o mais importante é compreender que diferentes formas de manipulação podem contribuir para que você questione ou minimize aquilo que está vivendo.

Por isso, uma pergunta simples pode ser muito mais reveladora do que passar a vida tentando decifrar as atitudes da outra pessoa:

“Quem eu me tornei depois de viver essa relação?”

Essa pergunta muda o centro da sua análise.

Em vez de você tentar descobrir continuamente o que existe por trás das atitudes de quem te agride, você começa a observar os efeitos concretos que essa convivência produz em sua própria vida.

E quando você passa a reconhecer o seu sofrimento, torna-se possível perceber por que continuar a justificar o abuso pode ser tão perigoso.

O perigo de continuar justificando o abuso

Quando justificar o abuso se transforma em uma resposta automática para tudo o que acontece dentro da relação, você pode deixar de avaliar o comportamento pelo que ele realmente é:

Um episódio é explicado.

Outro é minimizado.

Mais um é atribuído às circunstâncias.

E, pouco a pouco, aquilo que deveria provocar uma reflexão passa a ser incorporado à sua rotina.

O perigo está justamente aí.

Uma justificativa isolada pode parecer apenas uma tentativa de compreender uma situação. Mas quando existe um padrão de comportamentos prejudiciais e a explicação é utilizada repetidamente para diminuir a importância deles, a justificativa começa a proteger a continuidade daquilo que está causando sofrimento.

Você pode se acostumar a pensar que existe sempre uma razão para a outra pessoa agir daquela maneira. E, enquanto procura essa razão, deixa de fazer uma pergunta essencial:

Esse comportamento é aceitável?

Essa pergunta não exige que você descubra a intenção de quem comete a agressão. Não exige que você saiba exatamente por que a outra pessoa age daquela maneira. Também não exige que você determine se o outro ser é alguém bom ou mau.

Ela simplesmente direciona a sua atenção para o comportamento em si e para as consequências reais dele na sua vida.

Isso é importante porque compreender a história de alguém não transforma automaticamente suas atitudes em algo aceitável.

Uma pessoa pode ter sofrido no passado e ainda assim ser responsável pela maneira como trata os outros no presente.

Da mesma forma, reconhecer que alguém possui dificuldades emocionais não significa que você precise suportar comportamentos que prejudicam sua vida.

Quando justificar o abuso impede essa avaliação, você pode permanecer presa à esperança de que exista uma explicação mágica, capaz de resolver o problema.

Mas nem toda explicação produz mudança.

E, quando os mesmos comportamentos continuam acontecendo apesar das suas inúmeras tentativas de compreendê-los, talvez seja necessário deixar de procurar novas justificativas e começar a observar o padrão.

É nesse ponto que também é importante conhecer o ciclo de abuso, tema que é aprofundado em outro artigo aqui do blog. Compreender esse ciclo ajuda a perceber como determinados comportamentos se repetem e por que a relação pode continuar mesmo depois de momentos que parecem indicar que tudo mudou.

Por enquanto, basta perceber uma coisa: justificar o abuso não interrompe o abuso.

Essa compreensão só se torna verdadeiramente útil quando permite que você enxergue a realidade com mais clareza.

E essa mudança começa quando a pergunta deixa de ser apenas “por que essa pessoa faz isso?” e passa a incluir outra muito mais importante:

“O que eu preciso fazer diante daquilo que está acontecendo comigo?”

É a partir dessa mudança de foco que podemos começar a falar sobre como parar de justificar o abuso.

Como parar de justificar o abuso e começar a enxergar a realidade

Parar de justificar o abuso não significa deixar de compreender o outro. Também não significa transformar cada conflito em uma prova de que existe uma relação abusiva.

Significa aprender a olhar para o comportamento sem permitir que a explicação apague suas consequências.

Uma maneira de começar é mudar as perguntas.

Em vez de concentrar toda a atenção nas intenções do outro, observe o que acontece concretamente com você.

Como eu me sinto depois das nossas conversas?

Tenho liberdade para discordar sem medo da reação dessa pessoa?

Estou constantemente tentando evitar conflitos?

Minha autoestima mudou desde que essa relação começou?

Tenho deixado de fazer coisas importantes para evitar problemas?

Estou sempre procurando uma explicação para comportamentos que me machucam?

Essas perguntas não servem para produzir um diagnóstico nem para determinar, sozinhas, se uma relação é abusiva. Elas servem para devolver à sua própria experiência a importância que ela merece.

Também pode ser útil observar os comportamentos ao longo do tempo, e não apenas episódios isolados.

O que acontece repetidamente?

O comportamento muda de verdade ou apenas durante algum tempo?

Existe reconhecimento da responsabilidade ou a culpa sempre termina nas mãos de outra pessoa?

Você consegue estabelecer limites sem sofrer retaliações, humilhações ou ameaças?

Quando começamos a observar padrões, fica mais difícil esconder uma realidade inteira atrás de uma única justificativa.

Outra mudança importante é separar três coisas que frequentemente se misturam: a história do outro, o comportamento do outro e os efeitos desse comportamento sobre você.

Você pode compreender a história de alguém.

Pode reconhecer suas dificuldades.

Pode até sentir compaixão.

Mas nada disso exige que você aceite comportamentos que causam sofrimento.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de abandonar quando estamos acostumados a justificar o abuso: a ideia de que compreender completamente o outro é uma condição para podermos nos proteger.

Não é.

Você não precisa descobrir todas as razões pelas quais alguém age de determinada maneira para reconhecer que determinada atitude está fazendo mal a você.

Também não precisa esperar que o outro concorde com sua percepção para levar seu sofrimento a sério.

Reconhecer o que está acontecendo não significa tomar imediatamente uma decisão sobre o futuro da relação. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente se permitir olhar para aquilo que antes você tentava explicar o tempo todo.

Sem minimizar.

Sem exagerar.

Sem procurar uma desculpa antes mesmo de reconhecer o que aconteceu.

Porque, quando você para de perguntar apenas “por que essa pessoa faz isso?”, começa a surgir uma pergunta muito mais importante:

“O que essa relação está fazendo comigo?”

E é essa pergunta que pode abrir espaço para uma percepção diferente da própria vida e, posteriormente, para escolhas mais conscientes

Porque, quando você para de perguntar apenas “por que essa pessoa faz isso?”, você quebra o feitiço das desculpas automáticas. É exatamente essa mudança de foco que desativa a necessidade de justificar o abuso e devolve o controle da sua jornada para as suas próprias mãos.

Conclusão: parar de justificar o abuso pode ser o primeiro passo para recuperar sua liberdade

Justificar o abuso não significa necessariamente que uma pessoa não percebe o que está acontecendo. Muitas vezes, significa que ela ainda está tentando encontrar uma maneira de conviver com uma realidade que é difícil demais de aceitar.

Ela pode amar.

Pode ter esperança.

Pode compreender a história do outro.

Pode lembrar dos momentos bons.

Pode reconhecer os próprios erros.

Nada disso torna o abuso aceitável.

Compreender por que alguém age de determinada maneira pode ser importante para a Psicologia. Mas essa compreensão não precisa se transformar em uma justificativa para continuar suportando comportamentos que causam sofrimento.

Existe uma diferença entre perguntar “o que aconteceu com essa pessoa para ela se tornar assim?”eperguntar “o que está acontecendo comigo enquanto convivo com esse comportamento?”

As duas perguntas podem existir.

Mas, quando você está sendo prejudicado, a segunda não pode continuar sendo deixada de lado.

Talvez seja justamente aí que comece uma mudança importante:

Quando você para de procurar uma explicação para cada atitude e começa a observar os padrões.

Quando deixa de analisar apenas as intenções do outro e passa a considerar os efeitos sobre sua própria vida.

Quando percebe que assumir seus erros não significa assumir a responsabilidade pelas escolhas de outra pessoa.

E quando entende que não precisa esperar uma explicação perfeita para reconhecer que algo está fazendo mal.

Os mecanismos psicológicos que tornam esse processo tão complexo são diversos e serão, ou já estã sendo aprofundados em outros artigos deste blog. Aqui, o objetivo foi dar o primeiro passo: perceber como justificar o abuso pode fazer com que você olhe durante muito tempo para a história de quem machuca, enquanto deixa de olhar para a própria história.

Por isso, talvez a pergunta que mereça permanecer na sua mente depois desta leitura é:

O que eu estou fazendo comigo ao continuar aceitando isso?

Essa pergunta não precisa ser respondida imediatamente.

Às vezes, apenas conseguir fazê-la já significa que alguma coisa começou a mudar.

Porque parar de justificar o abuso não significa perder a compaixão pelo outro.

Significa começar a ter compaixão também por você.

Dê o próximo passo: entenda por que é tão difícil se libertar

Se você percebeu, durante esta leitura, que muitas vezes tentou explicar, minimizar ou negar aquilo que estava acontecendo dentro da relação, talvez seja importante compreender o que acontece antes mesmo de conseguir reconhecer plenamente o abuso.

No meu e-book gratuito Por que é tão difícil se libertar de um narcisista?, aprofundo justamente esse processo e mostro por que, mesmo quando existem sinais de sofrimento, pode ser muito difícil aceitar a realidade de uma relação com uma pessoa narcisista.

Fique bem e nos encontramos na próxima leitura.

Fontes

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